segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Quando o milagre torna-se banal







Por Claudionor Corrêa de Andrade

INTRODUÇÃO

Encontrava me a lecionar, certa vez, acerca da Teologia do Avivamento, quando me vi constrangido a responder a uma pergunta que já vai criando ranço em nossos arraiais: "Por que os milagres já não se repetem hoje como outrora?" Embora teologicamente justificável, tal curiosidade não procede. Histórica e biblicamente, não procede.

Revirando o Antigo Testamento e já no Testamento Novo, há de se verificar que semelhante preocupação não é nova. Era já manifestada nos dias dos salmos.

Nesses dias antigos e quase imemoriais, quando a inspiração do Espírito Santo fazia se sentir nas escrituras que se iam lavrando, e quando os milagres do Êxodo e os de Canaã ainda podiam ser recordados sem a ajuda de qualquer registro; sim, nesses dias encanecidos, o saudosismo já se fazia coevo. Eis a queixa que os filhos de Coré endereçam ao Senhor: “Ouvimos, ó Deus, com os próprios ouvidos: nossos pais nos têm contado o que outrora fizeste, em seus dias (Sl 44.1).

Para o Israel daqueles dias, a pergunta também era teologicamente justificável. Histórica e escrituristicamente, não. Encontravam se os israelitas na mesma situação em que nos achamos. Sentiam um vazio mui grande e desconfortável. Não era vazio de milagres. É algo bem mais grave; doentiamente crônico. Antes que entremos a descobrir a etiologia dessa enfermidade, vejamos o que é o milagre.

I. O QUE É O MILAGRE

Na versão revista e atualizada da Bíblia de Almeida, a palavra milagre pode ser encontrada pelo menos 23 vezes. Originando se do vocábulo latino miraculum, etimologicamente significa espanto, assombro. Explica nos Silveira Bueno que a forma portuguesa da palavra surgiu com os antigos cancioneiros. É atribuída à influência dos monges cluniacenses que a trouxeram de França.

Classicamente, o milagre é definido como a suspensão, ou derrogação, temporária das leis da natureza por uma força sobrenatural. Mario Ferreira dos Santos aprofunda se no assunto: "Fato ou acontecimento que ultrapassa a natureza de uma coisa ou de um conjunto de coisas, um fato, em suma, sobrenatural (ou extranatural) e que exige, portanto, para a sua explicação, a aceitação de uma causa eficiente, que não pode pertencer à natureza de nenhuma das coisas finitas, sendo, portanto, atribuído à divindade. Por extensão, e em sentido popular, todo fato extraordinário, para o qual não é encontrada uma explicação satisfatória".

É do professor Maximilian Rast a próxima definição: "O milagre é um acontecimento perceptível e extraordinário que, ultrapassando as forças meramente naturais, tem em Deus seu autor imediato ou mediato. Só recebe o nome de milagre o acontecimento sobrenatural manifesto, perceptível".

II. QUANDO O MILAGRE TORNA SE BANAL

Não obstante os espantos e admirações que nos arranca o milagre, pode levar nos à saturação. É extraordinário, mas tende a viciar nos os sentidos do corpo e os da alma. Derroga as leis da natureza, induz nos porém a enfadar nos de suas performances. Abre nos as portas ao sobrenatural, todavia nem sempre consegue desarraigar nos das mesmices espirituais. Nem sempre a ocorrência de milagres denota avivamento; a característica principal deste é o amor a Cristo que nunca deixa de ser primeiro. Amamos a Jesus não pelos sinais e maravilhas que opera; amamo-lo pelo sacrifício do Calvário que ousou por todos nós.

Se não tomarmos cuidado, pode o milagre encaminhar nos até mesmo à incredulidade.

Mostre se embora paradoxal, essa assertiva é teológica, histórica e biblicamente mais que justificável. É só adentrar os diversos pavilhões do Livro Santo para se lhe comprovar a validade.

No Antigo Testamento, nenhuma geração presenciou tantos milagres como aquela que Moisés arrancara ao cativeiro. Maravilhas no Egito. Prodígios na travessia do Mar Vermelho. Sinais e portentos no deserto. Nenhuma outra gente jamais assistira, ou assistiria, a tantos atos sobrenaturais. O mesmo Deus o testemunha: “Eis que faço uma aliança; diante de todo o teu povo farei maravilhas que nunca se fizeram em toda a terra, nem entre nação alguma: de maneira que todo este povo, em cujo meio tu estás, veja a obra do Senhor; porque cousa terrível é o que faço contigo” (Êx 34.10).

As maravilhas e sinais. Os prodígios. Enfim, todos os milagres não foram suficientes para erradicar a incredulidade de Israel. Por quarenta anos divagaram os israelitas pelo deserto. Avançavam dunas e areais; regrediam na fé. Embora pisassem remansos, o chão de sua crença jamais perdeu aquela aridificação tão própria das terras do Faraó. E, agora, perto de Canaã, e já distantes do repouso divino.

Os israelitas já estavam enfadados do sobrenatural. Quando o maná cobriu pela primeira vez o arraial hebreu, causou espanto. Diante daquela maravilha que nem nome tinha, o povo resolveu colocar uma interrogação como apelido ao singular alimento.

Que é isto?

Era o que todos perguntavam.

E assim maná passou a designar o pão dos anjos. Não era propriamente pão; interrogação era. Israel alimentado por uma pergunta que jamais seria respondida! Pode haver maravilha maior? Contudo, o objetivo de Deus não era matar a curiosidade de Israel; mitigar lhe a fome era o seu desígnio.

Que é isto?

No primeiro dia, milagre. No segundo, ainda maravilha. No terceiro, não deixava de causar espécie. Mas os dias passaram e fizeram se semanas. Estas acharam se em meses. E, agora, o maná já serve de tropeço em Israel. O que era milagre, agora cansa Israel. Agora enfastia Israel. Ainda é maná. É ainda uma pergunta. Uma interrogação que não obteve resposta. E mesmo não elucidada, já não é sensação. E por causa desse milagre que se fez rotina às portas hebréias, Israel murmura. E, amargamente, murmura: “Agora, porém, seca se a nossa alma, e nenhuma cousa vemos senão este maná” (Nm 11.6).

Nessa queixa dos hebreus, não vemos apenas incredulidade. Há de se divisar aquela amargura tão própria de quem já se fez indiferente ao extraordinário. Tantos eram os milagres, que eles já não suportavam mais o sobrenatural. Pois a primeira coisa que viam, tão logo descerravam a cortina de suas tendas, era justamente o milagre.

Sim, o milagre estava lá!

Tudo branco. O pão dos anjos caía de madrugada, orvalhava o deserto e tornava ameno o arenal. Mesmo assim, o povo enfadara se do milagre.

III. A BUSCA DO NATURAL

Israel, agora, almeja o natural. Já anseia pela opressão do Egito: “Lembramo nos dos peixes que no Egito comíamos de graça; dos pepinos, dos melões, dos alhos silvestres, das cebolas e dos alhos” (Nm 11.5).

Como se pode desejar mais a opressão que os milagres? Mais a escravidão que as maravilhas do Senhor? Assim acontecia, assim acontece. Os sentidos de Israel já se achavam embotados pelo sobrenatural; pelos milagres contínuos, embotados.

A semelhança dos filhos de Israel, vemo nos também saturados de milagres. Embora perguntemos por estes, tememo los: eles trazem a glória de Deus. E nem sempre estamos preparados a aproximar nos do fumegante Sinai. O culto de Balaão, onde o carnal sempre acaba por sufocar o sobrenatural, exibe se mais conveniente.

Se ansiamos tão somente pelos sinais e maravilhas, já os vemos como um espetáculo à parte. E, assim, já não perguntamos para que servem. Mas não nos esqueçamos: em todas as manifestações sobrenaturais, há sempre uma pergunta a responder.

IV. A GRANDE PERGUNTA DE ORÍGENES

Milagre não é espetáculo. Ele acontece tendo em mira triplo objetivo: 1) glorificar o nome de Deus; 2) promover a doutrina apostólica; e: 3) fortalecer a fé aos santos. O milagre não ocorre para aguçar nos a curiosidade. Haja vista o que aconteceu a Herodes quando lhe enviaram a Jesus naquela noite de paixão e dor. Esperava o rei ver algum sinal por parte do Cristo, mas o Senhor silênciou.

O que buscava Herodes?

Um espetáculo! Era o que toda a Judéia, e em especial Jerusalém, buscara durante todo o ministério terreno de Cristo. Seguiam no os judeus não porque vissem nEle o Messias; e, sim, para assistir algo grandioso, que lhes excitasse os sentidos. Por isto, toda aquela geração, à semelhança dos contemporâneos de Moisés, morreu em suas iniqüidades. Sim, apesar dos incontáveis prodígios e maravilhas operados pelo Nazareno, pereceram na incredulidade que se vinha cristalizando desde que Israel saíra do Egito.

Às vezes, não entendemos por que o Cristo ressurrecto não se apresentou a Israel. Mas não é preciso rebuscar explicações para se concluir uma resposta. Houvera isto acontecido, teríamos certamente um grande espetáculo. Bastariam, porém, algumas semanas, e o milagre teria acabado por saturar os judeus como o maná impacientara a geração do Êxodo. E, assim, não vacilariam em matar novamente o Messias. Não intentaram fazer o mesmo ao Lázaro de Betânia?

Foi pensando na seriedade do milagre que nos aconselha Orígenes a fazer sempre esta pergunta quando da ocorrência de qualquer sinal ou prodígio: "Qual o seu objetivo?" Desta pergunta que, sem dúvida, nos levará a um laborioso exercício teológico, haveremos de obter uma solícita e gravíssima resposta.

Sim, qual o objetivo do milagre?

Se é para glorificar a Deus, é milagre; mas se tem por fim endeusar o homem, não. Se é para confirmar a fé aos féis, continua milagre; mas se tem por objetivo promover um espetáculo, não. Se é para referendar as verdades bíblicas e administrar os meios da graça, permanece milagre; mas se tem como alvo a promoção do efêmero, jamais será milagre. Se é para efetivar o avivamento, é milagre; mas se tem por meta aguçar os sentidos humanos, nunca será milagre.

Vejamos o caso de Moisés e Aarão diante do Faraó. Os servos de Deus visavam, com a demonstração de seus milagres, duas coisas: fortalecer a fé aos hebreus, e convencer a Faraó a deixar partir os filhos de Israel. Todavia, lá estava o rei do Egito pronto a resistir aos arautos de Jeová. Lá estava com os seus magos e adivinhos. Lá, os chefes das ciências ocultas: Janes e Jambres. Queria o egípcio apenas uma coisa: ostentar o poder trevoso de sua equipe. E, dessa maneira, promover um grande espetáculo que acabasse por perverter a fé aos filhos de Jacó.

Como vivemos hoje momentos difíceis, carecemos repetir a pergunta de Orígenes. Pois, infelizmente, nem todos os milagres são de Deus. No Apocalipse, por exemplo, vemos a besta e o falso profeta realizarem grandes sinais e maravilhas que enganarão toda a terra.

Diante do milagre, não vacilemos em perguntar: Qual o seu objetivo? Se glorificar o nome de Deus, é milagre. Caso contrário, não. Porque Deus não tem por objetivo promover espetáculos.

Espetáculo é para mimar os olhos; apenas a piedade há de fortalecer a crença. O verdadeiro milagre tem como motivação o amor, e não o exibicionismo barato e malévolo de alguns.

V. SOFRER OU FAZER MILAGRES?

Por que o autor da Epístola aos Hebreus detém se a mencionar apenas dois sucessos concernentes à peregrinação dos filhos de Israel – a travessia do Mar Vermelho e a derribada das muralhas de Jericó? Sendo que, entre ambos os eventos, houve muitos outros prodígios e maravilhas? Acerca destes, porém, cala se o apóstolo.

A resposta parece óbvia. O escritor sagrado limitou se a mencionar apenas esses dois episódios, pois outra coisa não fez Israel, durante os quarenta anos de suas andanças, senão sofrer o sobrenatural. Por isso, o batismo no Mar de Juncos e o sítio de Jericó foram tidos como atos de fé.

Na travessia do Mar Vermelho, os filhos de Deus puseram se em marcha até que se abrissem as ondas. Não estavam dispostos a sofrer o milagre; seu intento era fazê-lo acontecer. Israel vivia o seu primeiro avivamento! O mesmo se deu quando as tribos hebréias chegaram a Canaã. No Jordão, não padeceram o milagre; realizaram-no. Bastaram os pés dos levitas pisarem o caudaloso das águas para que se abrisse o rio. E, quando do sítio de Jericó, também não quiseram padecer o milagre. Rodearam a cidade seis dias. E, no sétimo, deitaram os muros todos por terra com o soar das trombetas. Israel retoma, aqui, as primícias de seu avivamento.

Não resta dúvida de que, em ambos os eventos, a operação foi divina, mas a iniciativa, humana. Inequivocadamente, humana. Isto se chama fé.

O milagre aconteceu. Mas a fé não se achava ausente. Ela estava lá; bem presente em todos aqueles atos e façanhas. Quanto às maravilhas havidas durante a peregrinação, pobres hebreus! Passaram quarenta anos sofrendo milagres e prodígios. E, como não tivessem fé, acabaram por naufragar no sobrenatural. Morreram em sua incredulidade: “E a quem jurou que não entrariam no seu repouso, senão aos que foram desobedientes? E vemos que não puderam entrar por causa da sua incredulidade” (Hb 3.18,19).
Nas águas de Mara, sofreram o milagre. Na rocha, suportaram o milagre. No orvalhar do maná, padeceram o milagre. Enfim, em toda a sua peregrinação agiram passivamente no tocante ao milagre. Não é sem razão que a sua jornada é conhecida como a provocação do deserto.

CONCLUSÃO
Na Grande Comissão, o Senhor instiga a Igreja a fazer milagre. Exige ele que realizemos o sobrenatural: "Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda a criatura, quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado. E estes sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas: pegarão em serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e os curarão" (Mc 16.15 18).

Se a Igreja se puser em marcha, com certeza todos os sinais a acompanharão, pois já é o Reino de Deus em movimento. Mas se parar, os milagres desaparecem. E, mesmo que aconteçam, dificilmente arrancarão o povo à sonolência espiritual. Quando evangeliza, a Igreja não sofre o milagre; realiza-o. Entretanto, se já não liga importância à Grande Comissão, cai no saudosismo. E como o saudosismo é prejudicial ao Reino de Deus!

Fonte: CPAD NEWS

2 comentários:

  1. Olá, irmão Valdemir. A paz do Senhor.

    Parabéns pelo blog tão organizado e edificante.
    Que o Senhor continue usando a sua vida para a expansão do Reino Celestial.

    Deus te abençoe grandemente.
    Debora Zibordi

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  2. Amém, Muito grato por suas palavras. Que Deus em Cristi continue nos abençoando. Já estou seguindo o seu blog. Ok.

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