domingo, 19 de novembro de 2017

A IMPORTÂNCIA DA ESCOLA BÍBLICA E SEUS BENEFÍCIOS


Por Valdemir Pires Moreira

INTRODUÇÃO
Sendo a Escola Bíblica a agência de ensino da igreja, ao mesmo tempo que ensina, ela cumpre os dois lados da Grande Comissão conforme Mateus 28.19-20. Isso é, trata-se de proclamar o Evangelho e ensinar o Evangelho.
O propósito da Grande Comissão é fazer discípulos que observarão os mandamentos de Cristo. Este é o único imperativo direto no texto original deste versículo. A intenção de Cristo não é que o evangelismo e o testemunho missionário resultem apenas em decisões de conversão. As energias espirituais não devem ser concentradas meramente em aumentar o número de membros da igreja, mas, sim, em fazer discípulos que se separam do mundo, que observam os mandamentos de Cristo e que o seguem de todo o coração, mente e vontade (cf. Jo 8.31). (STAMPS, 1995, p. 1452).
Fazendo uma comparação entre a ação da escola pública e a Escola Bíblica, o pastor Antonio Gilberto observa que enquanto a escola pública tem como prioridade o intelecto do educando, a Escola Bíblica tem por prioridade o coração. Cumprindo assim o que está declarado na Carta aos Hebreus 10.16, a ordem é coração e mente, e não ao contrário. (GILBERTO, 2001, p.9).
A educação cristã é fundamental para o crescimento e amadurecimento espiritual de toda a igreja, e a Escola Bíblica é a responsável em educar a todos aqueles que vêm a Cristo. Apesar de o culto de doutrina (ou de ensino) ter sua contribuição na área da Educação Cristã, é na Escola Bíblica que nos é permitido o ensino por meio do diálogo. Vejamos, no entanto, o que é Educação Cristã?

I. O QUE É EDUCAÇÃO CRISTÃ
 Segundo o pastor Claudionor de Andrade, Educação Cristã é um:
"Programa pedagógico que, tendo por base a Bíblia Sagrada, visa ao aperfeiçoamento espiritual e moral dos que se declaram cristãos e daqueles que venham a atender o chamado do evangelho de Cristo." (ANDRADE, 1998, p.?).
A pedagogia divina segue a um processo contínuo que envolve o ser humano por completo (espírito, alma e corpo), conduzindo-o a desenvolver a mente (Rm 12.1), seu aspecto emocional para que entenda a si mesmo e recupere sua auto-imagem (1 Tm 4.16) dentro do contexto em que estamos inseridos. Ela ainda contempla o nosso homem interior, nosso lado espiritual que é o mais beneficiado com esse processo (CARVALHO, 2007, p.76).
Segundo a professora Tema Bueno, como educadores cristãos, temos um alvo:
Que os nossos alunos aprendam a Palavra de Deus. A aprendizagem é um processo, cujo objetivo é a mudança de comportamento. (ver: Dt 6-7; Pv 9.9; Is 48.17; 1Co 14.20). (BUENO, 2012, p.22).

I. A IMPORTÂNCIA DA ESCOLA BÍBLICA
A importância da Escola Bíblica é vista em quatro etapas, são elas:
1. Alcançar.
Alcançar todas as faixas etárias desde o berçário até aos adultos. A Escola Bíblica tem por finalidade alcançar o maior número possível de pessoas com o estudo apropriado para cada faixa etária com estudos metódicos e sistemático da Palavra de Deus.
2. Conquistar.
Muitos são alcançados pelo evangelho de Cristo, mas não permanecem em razão de não serem conquistados. A Escola Bíblica proporciona esse ambiente para se efetivar essa conquista. Lembremo-nos que a conversão se realiza através do ensino (Jo 6.45).
3. Ensinar.
Estamos ensinando aqueles que temos conquistados? Segundo o pastor Antonio Gilberto: “o ensino, deve ser pedagógico e metódico como numa escola, sem contudo, deixar de ser espiritual”. Em outras palavras o ensino dever ser exercido levando em consideração a fé e a razão, a graça e o conhecimento. Devemos ensinar a Palavra de Deus com seriedade e esmero, apropriando-nos dos mais eficazes recursos educacionais que estejam à nossa disposição: “...se é ensinar, haja dedicação no ensino” (Rm 12.7b).
4. Treinar.
Por falta de seminários teológicos em muitas igrejas. A Escola Bíblica vem representando para os aspirantes ao ministério e obreiros, um seminário teológico de currículo variado, flexível e permanente. Dwight L. Moody, o maior evangelista de todos os tempos, converteu-se e iniciou sua formação bíblica e teológica na Escola Dominical.

II. BENEFÍCIOS DA ESCOLA BÍBLICA       
Aqueles que são alunos assíduos da Escola Bíblica e praticantes do que se aprende são beneficiados de várias, dentre elas destacamos:  
1. Crescimento espiritual (2 Pe 3.18).
A carta de Pedro termina com uma nota de exortação e louvor. À medida que as pessoas crescem “na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo”, sua vida e adoração serão louvores a Ele. (STRONSTAD, 2006, p.1748).
2. A comunhão com os irmãos (At 2. 42).
Os crentes se dedicam à “comunhão”. A palavra “comunhão” (koinonia) expressa a unidade da igreja primitiva. Nenhuma palavra em nosso idioma traduz seu significado completamente. Comunhão envolve mais que um espírito comunal que os crentes compartilham uns com os outros. É uma participação comum em nível mais profundo na comunhão espiritual que está “em Cristo”. No lado humano, os crentes partilham uns com os outros, mas a qualidade da comunhão é determinada pela união com Cristo. Eles foram chamados à comunhão (ARRINGTON,2006, pp.639-640)
3. Uma vida bem-sucedida (Sl 1.1-6).
O resultado, para os que fielmente buscam a Deus e à sua Palavra, é ter vida no Espírito. Uma vez que a água comumente representa o Espírito de Deus (e.g., Jo 7.38,39), os que são instruídos por Deus e guardam a sua Palavra terão em si uma fonte de vida inesgotável da parte do Espírito. A expressão tudo quanto fizer prosperará não significa que o crente nunca terá problemas nem reveses, mas, sim, que o justo conhecerá a vontade de Deus e a sua bênção (v.3). (BÍBLIA, 1995, p.817).
  
CONCLUSÃO
Concluiremos esses pensamentos pedindo a Deus sua benção e seu poder sobre a vida de todos que fazem parte do corpo docente e docente, professores e alunos, que possamos nos dedicar ao máximo na proclamação e ensino da Palavra de Deus cumprindo assim, a Grande Comissão, ordenada por nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

REFERÊNCIAS
ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Dicionário Teológico. Rio de Janeiro: CPAD, 1998.
ARRINGTON, French L & STRONSTAD, Roger. Comentário Bíblico Pentecostal: Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.
BÍBLIA, Bíblia de Estudo Pentecostal: Antigo e Novo Testamento. Trad. João Ferreira de Almeida. São Paulo: Casa Publicadora da Assembleia de Deus, 1995.
BUENO, Telma. Educação Cristã: reflexões e práticas. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.
CARVALHO, César Moisés. Marketing para a Escola Dominical: como atrair, conquistar e manter alunos na escola dominical. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.
SILVA, Antonio Gilberto da. A Escola Dominical: a história da mais importante
instituição de ensino bíblico e a sua importância para o povo de Deus. Rio de Janeiro: CPAD 2001.
TULER, Marcos. Manual do Professor de Escola Dominical: didática aplicada à realidade do ensino cristão. Rio de Janeiro: CPAD, 1998.

Valdemir Pires Moreira é diácono, casado com Elizangela Pires, bacharelando em teologia, professor da Escola Bíblica Dominical, e secretário da Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Caucaia (CE).

Contato: (85) 986471997

Facebook: Vademir Pires Moreira

sábado, 11 de novembro de 2017

FENÔMENOS PENTECOSTAIS




Por José Gonçalves

Pesquisando na internet encontrei esse artigo que escrevi em 2005. Primeiramente foi publicado na revista: O OBREIRO (CPAD), com o título: Espiritualidade e Equilíbrio. Posteriormente esse artigo foi assimilado, de forma resumida, pelo Dicionário do Movimento Pentecostal no verbete "Fenômenos Pentecostais". Nesse tempo eu era pastor na AD de N.S. dos Remédios, PI. É grande, mas vale a pena ler.
“Deus estava perto de nós no culto. Na oração, o Espírito Santo se manifestou Poderosamente. Alguns riam debaixo do poder, outros falavam em línguas, outros profetizavam, e todos se alegraram muito. Nunca vi o poder de Deus derramado num culto como hoje na Vila Correia. O Espírito Santo fez, Ele mesmo, por meio de uma irmã, o convite para os pecadores se converterem. Uma grande multidão se reuniu ao ver esta manifestação maravilhosa do poder de Deus. Também durante a pregação, as bênçãos de Deus caíam sobre os crentes! Aleluia!”1. Foi dessa forma que o missionário Gunnar Vingren descrevia um culto realizado no Estado do Pará no dia 2 de maio de 1913. Percebemos na seqüência alguns termos que já são bem populares no vocabulário pentecostal moderno. São eles: ri debaixo do poder, falar em línguas e profetizar. Fenômenos como esses aconteciam com freqüência entre os primeiros pentecostais. A bem da verdade, esses fenômenos que faziam aflorar as emoções dos crentes não se limitavam aos avivamentos pentecostais, ou ao que outros movimentos avivalistas experienciaram de forma diferente, mas com semelhantes emoções. A questão não deve ser focalizada, portanto, na existência ou não desses fenômenos, mas na maneira como se reage a eles.
Os Perigos dos Pneumatismos Anárquicos
Muito se tem falado na teologia pentecostal moderna sobre os “modismos”, “inovações” e os “excessos” no exercício dos dons espirituais. Pesquisadores sérios como Esequias Soares, Paulo Romeiro e Ricardo Gondim têm demonstrado os perigos doutrinários a que se pode chegar quando um avivamento é divorciado dos princípios bíblicos. 
Há o perigo dos “pneumatismos” que conduzem à anarquia espiritual. Na gênese das seitas que dizem ser criação do Espírito de Deus, encontra-se com abundância as mais insidiosas aberrações teológicas. Esse é um problema que não pode ser simplesmente ignorado por se desejar preservar um evangelicalismo ou um suposto avivamento. Um fato de fácil observação e que merece ser destacado é que uma dicotomia extremada parece querer dominar todos os campos das verdades teológicas. Os dons espirituais, portanto, não são exceções à regra. Já no período de 1742 a 1743, Jonathan Edwards pregou uma série de sermões que, em 1746, veio a se tornar um Tratado Sobre Afeições Religiosas, no qual ele tratava desse problema. N. R. Needham observa que Jonathan Edwards “teve que lutar em duas frentes. Por um lado, tinha que argumentar contra aqueles que descartavam todo o avivamento como histeria irracional; por outro, tinha que argumentar contra aqueles que pareciam pensar que tudo o que aconteceu no avivamento era (de Deus), não importa quão estranho, extremista ou desequilibrado isso fosse. Essas duas posições antagônicas parecem familiares?”2. Uma das faces dessa dicotomia é vista por um lado naqueles que estão prontos a acreditarem e defenderem qualquer fenômeno espiritual sem a mínima preocupação de dar-lhe uma fundamentação bíblica e teológica. Para estes, a regra da validação dos dons espirituais parece ser a sobrenaturalidade. As perguntas que validam tais fenômenos costumam ser: É sobrenatural? É fenomenal? É tremendo? Donde se chega à conclusão: Então é de Deus! Uma outra coisa que precisa ser dita sobre esse modelo de “avivamento” é que ele além de não ser bíblico produz apenas uma espiritualidade superficial nos crentes. A.W.Tozer observou: “Creio que a imperativa necessidade do momento não é apenas de reavivamento, mas de uma reforma radical que atinja a raiz dos nossos males morais e espirituais e que trate mais das causa que das conseqüências, mas do mal que dos sintomas. Minha sincera opinião é esta: nas atuais circunstâncias não estamos desejando de todo um reavivamento. Um vasto reavivamento, do tipo do cristianismo de que hoje temos conhecimento (…) pode bem provar ser uma tragédia moral da qual não nos recuperaremos dentro de cem anos.”3

Os Perigos de uma Ortodoxia Engessante
Por outro lado, as teologias que engessam qualquer manifestação do Espírito Santo caracterizam a outra face da dicotomia. O Espírito Santo parece perder o seu direito de falar para a Igreja hoje. A.W.Tozer já demonstrava uma grande preocupação com essa maneira de enxergar os dons espirituais. Em seu livro O caminho do poder espiritual, ele diz: “Por toda uma geração, certos mestres evangélicos nos têm dito que os dons do Espírito cessaram por ocasião da morte dos apóstolos ou quando se completou o Novo Testamento. Certamente esta doutrina não tem a seu favor sequer uma sílaba de autoridade bíblica. Os que defendem tal idéia devem assumir inteira responsabilidade por essa aberrativa manipulação da Palavra de Deus.”4 Será que na nossa teologia pentecostal de hoje não há mais espaço para as manifestações carismáticas do Espirito Santo? Como obreiro pentecostal, tenho me preocupado com a forte reação negativa aos dons espirituais demonstrada por alguns setores dentro do pentecostalismo. A desculpa de que os fenômenos espirituais no pentecostalismo são pura meninice ou excesso parece muito simplista e não toca no cerne da questão. O teólogo Martin Lloyd Jones já dizia, ao se referir a um avivamento: “E assim temos esta curiosa, estranha mistura, de grande convicção de pecado e grande alegria, um grande senso de temor do Senhor, ações de graças e louvor. Sempre, num avivamento, há o que alguém definiu como uma divina desordem (…) Há ocasiões em que as pessoas estão tão convictas e sentem o poder do Espírito de tal forma que desmaiam e caem no chão, e têm até convulsões, convulsões físicas. E às vezes as pessoas parecem cair num estado de inconsciência, numa espécie de transe, e podem permanecer assim por horas”.5 As manifestações “estranhas”, “meninices” que ocorrem durante a manifestação dos fenômenos espirituais em avivamentos não devem constituir motivo para que não os desejemos. As manifestações periféricas existem e devem ser devidamente tratadas, mas a essência do avivamento é outra. Quem já conviveu e presenciou o exercício dos dons espirituais sabe exatamente o que significa o que o apóstolo Paulo quis dizer: “Assim vós, visto que desejais dons espirituais, procurai progredir, para a edificação da igreja”, 1Co 14.12. Os dons espirituais edificam e tornam o avivamento proveitoso.
Mapeando os Fenômenos de um Avivamento
Dois autores têm se destacado no estudo dos fenômenos espirituais do pentecostalismo e do neopentecostalismo. São eles Jack Deer e John White, respectivamente. Como psiquiatra, Jonh White procura dar explicações sobre as manifestações das emoções nesses avivamentos. Por outro lado, Jack Deer, que possui uma sólida formação teológica (Deer é Doutor em Teologia e ex-professor de Antigo Testamento e hebraico do Dallas Theological Seminary, onde foi instrutor de mestrado por alguns anos), faz um resgate histórico desses fenômenos na história da igreja, procurando sempre mostrar o lado positivo dos fenômenos pentecostais. As obras desses autores foram publicadas no Brasil. Surpreendido pela voz de Deus, Jack Deer (Vida); Surpreendido pelo poder do Espírito, Jack Deer (CPAD); e Quando o Espírito vem com poder, John White (ABU Editora).
Cair no Espírito
Tanto Deer como White têm dado forte ênfase aos dons espirituais. Infelizmente, é justamente na manifestação exterior dos fenômenos espirituais que a batalha tem se concentrado. John Wesley enfrentou forte oposição de outros líderes cristãos justamente porque durante a sua pregação algo incomum acontecia. No seu diário há vários casos relatados. Wesley registrou nele algo que ocorreu durante a sua pregação do dia 25 de abril de 1739: “Imediatamente um, depois outro e outro caíram no chão; eles caíam em toda parte, como atingidos por um raio”. Em outra parte do seu diário, o pai do metodismo registra: “Um, depois outro e mais outro foram lançados ao chão, tremendo excessivamente na presença do Seu poder. Outros gritaram, em voz alta e amargurada: O que devemos fazer para ser salvos?’”.6 O cair sob o poder de Deus ao qual Wesley se refere é conhecido hoje na teologia pentecostal como “cair no Espírito”. A obra The New International Dictionary of Pentecosta and Charismatic Movements observa que essa é “uma expressão moderna para denotar o fenômeno religioso de uma queda individual, sendo que a causa é atribuída ao Espírito Santo. O fenômeno é conhecido entre os pentecostais modernos e na renovação carismática sob vários nomes, incluindo ‘caindo sob o poder’, ‘dominado pelo Espírito’, e ‘descanso no Espírito’’.7 William W. Menzies acrescenta: “Nessas reuniões ardentes (dos pentecostais), não era raro uma pessoa – ou muitas – cair numa espécie de transe, às vezes agitando-se violentamente. ‘Cair no Espírito’ era também um fenômeno muito difundido”. 8 Alguns autores querem diferenciar o “cair sob o poder” no avivamento wesleyano do “cair no Espírito” do pentecostalismo clássico ou moderno, afirmando que em Wesley isso ocorria como conseqüência de uma convicção de pecado, enquanto essa prática no pentecostalismo não apresenta essa mesma evidência. Sem desmerecer essa tese, ela parece muito subjetiva e carece de fundamentação mais sólida. Não há elementos que nos garantam afirmar que alguns fenômenos de “cair no Espírito” hoje não ocorram como conseqüência das mesmas convicções que experimentaram os seguidores de Wesley. Contudo duas observações sobre a ocorrência desse fenômeno parecem ser oportunas agora, e isto se deve ao fato da grande confusão criada em torno desse assunto. 
A primeira é que existe um fenômeno de “cair no Espírito” como manifestação de uma autêntica experiência espiritual bem documentada na história do pentecostalismo clássico; a outra é que existe a manipulação grosseira dessa mesma experiência. Ao se referir aos abusos causados por essa prática, Paulo Romeiro relembra que as Escrituras não oferecem qualquer apoio a esse fenômeno como algo a ser esperado ou buscado na vida cristã normal. Em seguida, Romeiro cita o Dicionário dos Movimentos Pentecostal e Carismático em sua antiga edição, que corrobora o seu pensamento: “A evidência para o fenômeno de ‘cair no Espírito’ é, portanto, inconclusiva. Do ponto de vista experimental, é inquestionável que, através dos séculos, os cristãos têm experimentado um fenômeno psicológico no qual as pessoas caem; além disso, elas têm atribuído o fenômeno a Deus. É igualmente inquestionável que não exista qualquer evidência bíblica para a experiência como algo normal na vida cristã.”9

Rir no Espírito
Apenas relembrando o que disse Gunnar Vingren em seu diário de 1913: “Na oração, o Espírito Santo se manifestou poderosamente. Alguns riam debaixo do poder”. Outra vez é oportuno enfatizar que tal fenômeno de “rir” não se limita ao movimento pentecostal. Jonathan Edwards registra que “sua regozijante surpresa fez com que seus corações estivessem a ponto de dar um salto, de forma que se condicionaram a dar vazão a risadas, lágrimas muitas vezes ao mesmo tempo fluindo numa enxurrada, e em meio a um choro audível”.10. Deve ser dito, no entanto, e com tristeza, que essa prática tem ido a extremos. As bizarrices do “rir no Espírito” veiculadas pela mídia chega a causar náuseas. Ainda possuo comigo uma fita de vídeo (VHS) que recebi dos Estados Unidos. O conteúdo da fita é de um Seminário de Inverno ocorrido na tarde de terça-feira do dia 23 de fevereiro de 1995. A fita fora intitulada When the Spirit Gets to Movin” (Quando o Espírito de Deus se Move). Isso aconteceu no auge daquilo que os apologistas chamam de a “unção do riso”. Após um estudo bíblico, o preletor começa a ministrar a cada pessoa individualmente. Ele encoraja as pessoas a se alegrarem no Senhor. A princípio as coisas acontecem dentro de certa normalidade, mas por fim ficam fora de controle. Há pessoas rindo como numa histeria coletiva por todo o auditório. Outros se contorcem em movimentos bruscos, enquanto outros riem até cair. O excesso e abuso das coisas espirituais ficam em evidência. John White reconhece que essa experiência pode ser imitada, mas argumenta que esse não deve ser o motivo para negarmos a genuinidade da verdadeira. Ao falar do “rir no Espírito”, diz: “Em alguns círculos traz prestígio. Cair no riso do Espírito ou fazê-lo acontecer em outras pessoas pode tornar- se um marco de uma conquista espiritual. Nessas circunstâncias pode-se sentir uma certa pressão. As risadas ficam forçadas e desagradáveis. Mas não podemos desprezar as verdadeiras por temermos as falsas”. Como citei Edwards anteriormente: “Embora haja falsas emoções na religião, e às vezes exaltadas, contudo sem dúvida há também verdadeiras, santas e boas emoções; e quanto mais estas são exaltadas, tanto melhor. E quando são exaltadas a uma altura extremamente elevada, não devem ser objeto de suspeita por causa do seu grau, mas, pelo contrário, devem ser estimadas”. 11
Evitando os Abusos
Seguem algumas diretrizes que julgo serem úteis para um obreiro buscar e se conduzir frente ao avivamento: 
1) Cuidado para que o centro do avivamento esteja em Cristo e não numa manifestação espiritual exterior; 
2) Tenha sempre como fundamento a Palavra de Deus. Tenho observado que muitos pregadores quando ministram numa reunião de avivamento abandonam a Palavra de Deus (ou usam como pretexto nos seus sermões), para se concentrarem nos dons espirituais.
3) Cuidados devem ser tomados com os pregadores que em nome de um suposto avivamento atuam como artista de púlpito, apenas animando o auditório e valendo-se de técnicas psicológicas para provocarem um emocionalismo superficial. Na verdade, esses pregoeiros estão buscando a autoglorificação. 
4) Cuidado com os avivamentos induzidos. Os estudiosos dos avivamentos observam que um avivamento acontece em primeiro lugar como resultado da vontade soberana de Deus. Os avivamentos ocorrem também como conseqüência da busca sincera de um coração puro e ardente pela manifestação da glória de Deus. Foi assim com o avivamento de 1904 no país da Gales com Evans Robert e no grande avivamento pentecostal de 1906 nos Estados Unidos da América. 
5) Cuidado com os pregadores sensacionalistas. Há relatos de pregadores que durante a ministração da Palavra de Deus param de pregar para atender Jesus no celular! Outros fazem coreografia para impressionar a Igreja. 
6) Cuidado com o avivalista que geralmente usa o nome de missionário e profeta, para exibir uma espiritualidade que não possui com objetivo de manipular a igreja e colocá-la sempre contra o seu pastor. 
7) Acompanhe de perto as reuniões de oração em busca de avivamento para que, quando este chegar, você possa canalizá-lo na direção certa.
8) Julgue todas as supostas manifestações espirituais pela Palavra de Deus, não importando o quão espetacular pareçam ser. 
9) Procure ser sensível ao Espírito Santo, pois, quando em um avivamento acontecer alguma manifestação espiritual, Ele lhe dará convicção se aquilo é Dele ou não. 10) Observe os efeitos do avivamento. Se ele não glorificar a Jesus Cristo, não produzir mudança de vida, não promover a derrubada de ídolos, então não é do Espírito de Deus. É o Reavivamento Moderno Profundo? 
Fiquemos como reflexão final com as palavras de Donald Gee, um dos mais importantes representantes do pentecostalismo clássico, que ao analisar o avivamento moderno disse: “Pode ser que eu esteja errado, mas uma das coisas que percebo no reavivamento moderno é a grande tendência de manter a congregação feliz (…) se eu entendo a minha Bíblia, um reavivamento verdadeiro começa por fazer todos infelizes. A verdadeira felicidade começa com a infelicidade, com a preocupação dos pecadores. Outra coisa que me preocupa é a apostasia fácil hoje em dia. Meu receio é que da mesma maneira rápida como as pessoas vêm, elas se vão”. A terceira pergunta a respeito do reavivamento moderno, e que me está causando a mais grave preocupação, é o declínio do sobrenatural. Que Deus conserve o Pentecoste pentecostal! Acredito firmemente que devemos receber a manifestação do Espírito de Deus em nós. Tenho notado, em toda parte, como as reuniões estão seguindo uma rotina: começam com três hinos, depois vêm os pedidos de oração e tudo o mais segue de acordo com o programa. 
A liturgia é boa. “Todavia, numa igreja pentecostal livre, verdadeira, nunca se sabe o que poderá acontecer em seguida. Se o leitor me perguntasse o que considero a mais profunda necessidade entre nós, eu diria que é o arrependimento. Se o arrependimento não estiver no reavivamento, este não terá profundidade suficiente. O arrependimento é o requisito do batismo no Espírito Santo. Fico a pensar se a falta de arrependimento não é a razão dos nossos batismos atuais serem tão superficiais. Oremos por um novo derramamento do Espírito Santo sobre o pregador e sobre todos nós, até que a terra amoleça com uma chuva serôdia, até que tenhamos um profundo reavivamento, reavivamento que nos conservará quebrantados, derretidos e amaciados diante do Senhor."11

Revista Obreiro, Ano 27, n.29, jan-mar, 2005, p.40-45. 

BIBLIOGRAFIA 
1 VINGREN, Gunnar. O Diário do Pioneiro. 5ª edição, Casa Publicadora das Assembléias de Deus, Rio de Janeiro, RJ, 1993. 
2 NEEDHAM, N. R. no prefácio do livro de Jonathan Edwards: “A Genuína Experiência Espiritual”.PES – Publicações Evangélicas Selecionadas. São Paulo, SP.
3 TOZER, A. W. O Caminho do Poder Espiritual Editora Mundo Cristão, São Paulo, SP. 
4 TOZER, A. W. op.cit.
5 JONES, D.M. Lloyd. Avivamento. PES – Publicações Evangélicas Selecionas, São Paulo, SP. 
6 BURGESS, Stanley M. & MAAS, Eduard M. Van. The New International Dictionary of Pentecostal and Charismatic Movements. Zondervan, Grand Rapids, Michigan, U.S.A, 2002. 
7 MENZIES, William W. No Poder do Espírito – fundamentos da Experiência Pentecostal. Editora Vida, São Paulo, SP. 
8 ROMEIRO, Paulo. Evangélicos em Crise. Editora Mundo Cristão, São Paulo, SP pág. 791. 
9 EDWARDS, Jonathan. The Works of Jonathan Edward. Citado por John White em Quando O Espírito Vem Com Poder. ABU – Aliança Bíblica Universitária. 
10 WHITE, John. Quando o Espírito Vem Com Poder. ABU Editora. São Paulo, SP, 1998. 
11 GEE, Donald. Depois do Pentecostes. Editora Vida, São Paulo, SP.

Pastor José Gonçalves é líder da Assembléia de Deus em Senhora dos Remédios (PI), conferencista, escritor e professor de Grego, Hebraico e Religiões Comparadas.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

A RELEVÂNCIA PENTECOSTAL NA ESFERA PÚBLICA


 Por Valmir Nascimento 
O que foi dito até este ponto vale para o Cristianismo em geral e para o Pentecostalismo em particular. Falando a partir de uma perspectiva de quem acredita na atualidade dos dons, no Batismo com o Espírito Santo e na glossolalia, devo ressaltar que os pentecostais têm sido caracterizados como um povo de muito poder, mas pouco envolvimento com as questões de natureza pública. Gregory J. Miller)afirmou que “acentuando a experiência de Deus na conversão e também uma dotação especial pelo Espírito Santo para o serviço e ministério cristãos (At 2.4; 1 Co 12), os pentecostais trouxeram energia para o evangelismo e missões mundiais”1. Tal assertiva é verdadeira, mas por que essa energia não é percebida também na esfera pública) em todos os setores da sociedade?
Não deveria ser assim, pois um dos fatores que distingue o Pentecostalismo das demais vertentes do protestantismo é a sua crença na continuidade dos dons — e a consequente capacitação para o testemunho público, assim como o entendimento de que o livro de Atos fornece um modelo para a igreja contemporânea. Nas palavras de Robert Menzies: “A hermenêutica do crente pentecostal típico é direta e simples: as histórias em Atos são minhas histórias — histórias que foram escritas para servir de modelo para moldar a minha vida e experiência”2. Se as narrativas de Atos nos servem de modelo, como de fato acreditamos, deveríamos dar semelhante testemunho impactante que os irmãos da Igreja Primitiva deram, sem nos limitar ao âmbito eminentemente religioso.
Além disso, de maneira mais articulada, a teologia pentecostal também pode refletir sobre questões públicas a partir de seus próprios pressupostos teológicos, sem depender inteiramente de outras tradições religiosas (Foi-se o tempo em que se achava que o Pentecostalismo era um movimento a procura de uma teologia). Dentro dessa perspectiva, o teólogo pentecostal Amos Yong afirma que, embora se suponha que o Pentecostalismo seja uma teologia baseada na experiência, espiritualidade ou piedade, é possível se extrair dela implicações normativas para a fé cristã em praça pública. Ele observa que uma reflexão teológica distintamente pentecostal não é apenas uma atividade eclesiástica, “mas tem potencial construtivo para iluminar a crença e a prática cristã no século XXI”3.
Com base nessa premissa, Amos Yong recorda que as cinco afirmações teológicas do Pentecostalismo (Jesus salva, santifica, batiza com o Espírito Santo, cura e em breve voltará para reinar), que formam o Evangelho quíntuplo, serve de estrutura analítica para a auto- compreensão distintiva e coerente do Pentecostalismo, honrando a sua natureza plural, ao mesmo tempo em que é útil para pensar teologicamente a participação social, política e econômica dos carismáticos.
De fato, embora as cinco máximas doutrinárias da teologia pentecostal possam ser consideradas simples por alguns, elas honram as Escrituras, exaltam a centralidade e soberania de Cristo, e fornecem diretrizes cardeais para o nosso envolvimento com a sociedade contemporânea, tendo o Evangelho de Atos como modelo.
Com efeito, Jesus como salvador e libertador, enfatiza o senhorio de Cristo e a majestade de Deus sobre toda a criação, revelando o poder de Jesus sobre a morte e o pecado.
Jesus como santificador aponta para restauração e santificação do povo de Deus incluem não somente sua purificação, mas também sua consagração para testemunhar e contribuir com a redenção do mundo4, implicando assim consequências políticas. Contudo, tendo como exemplo a Igreja Primitiva, ao mesmo tempo em que preserva certa separação cristã em relação ao mundo, uma política de santidade inspira compromisso cultural de engajamento e transformação, discernido pelo Espírito e conduzido para a glória de Deus. Além da erradicação dos efeitos do pecado no nível pessoal, a santidade conduz à busca da perfeição que trás efeitos sócio-políticos, impactando organizações e instituições locais.
Jesus como aquele que batiza no Espírito Santo — permite articular, segundo Yong, uma política profética na sociedade civil. Classicamente, a teologia pentecostal compreende o batismo no Espírito Santo como um revestimento de poder divino, que capacita o cristão para o testemunho e evangelização do mundo. Além disso, o empoderamento do Espírito capacita o crente para testemunhar explicitamente na praça pública, instigando também para uma vida de comunidade, mutualidade e generosidade.
Amos sugere, em Jesus como curador, que as curas corporais não são eventos tão somente milagrosos, mas soteriológicos, como sinal do Reino de Deus. Inspirada pelo Espírito, a igreja é, então, a manifestação da cura, reconciliação, paz e justiça5. No plano econômico, em vez de ser dominada pela lógica do mercado de troca e suas transações de oferta e demanda, a igreja é guiada pneumatologicamente pela graça, perdão e solidariedade, servindo a Deus e não a Mamom.
Jesus como o rei que está voltando, o último elemento doutrinário desfalista, aponta para uma dimensão escatológica da teologia pentecostal. Enquanto Deus derrama o seu Espírito no tempo presente, ainda trabalha ativamente na esperança do Reino vindouro. Com efeito, a dimensão escatológica da teologia política de matriz pentecostal refere-se não meramente a crenças do porvir, mas orienta a prática cristã no presente. A esperança cristã engloba o dom do Espírito que nos atrai para a história de Jesus e evita uma mentalidade escapista, permitindo com isso um desempenho em praça pública,6 como um povo de oração, adoração e louvor, testemunhando os poderes da cruz, como antecipação da restauração-futura.
Assim, para que a igreja possa ser relevante em um mundo caído e corrompido, devemos nos lembrar destas verdades simples, mas poderosas: Jesus salva e liberta, santifica, cura, batiza no Espírito Santo e em breve voltará.

É exatamente a partir desta perspectiva que o presente livro foi escrito. Embora tenha sido produzido com o propósito de servir como apoio à lição bíblica de jovens de mesmo título, as reflexões e pesquisas aqui contidas são mais abrangentes, com o propósito de discutir sobre diversos temas que emergem na sociedade contemporânea, a respeito dos quais somos chamados a dar respostas contundentes à luz das Escrituras e das convicções cristãs. Mais que isso, é um convite ao testemunho no poder do Espírito!
1 PALMER, M. D. (Org.). Panorama do Pensamento Cristão. Rio de Janeiro: CPAD, 2001. p. 143.
2 MENZIES, R. Pentecostes: Essa História É a nossa História. E-book Kindle. Rio de Janeiro: CPAD, 2016, p. 322.
3 YONG, A. In lhe Days of the Caezar. Pentecostalism and Political Theology (Sacra Doc- trina: Christian Theology for a Postmodem Age). E-book Kindle. Grand Rapids, Michigan: The Cadbury lectures, 2009, p. 142.
4 YONG, 2009, p. 2237.
5 YONG, 2009, p. 3363.
6 YONG, 2009, p. 3947.

SEGUIDORES DE CRISTO: testemunhando numa sociedade em ruínas. Valmir Nascimento. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

O PRIMEIRO LÍDER DA IGREJA FOI PEDRO OU TIAGO?

“É correto dizer que Pedro foi líder da Igreja Primitiva 
ou essa função foi de Tiago? ”
(Valdenir Silva, Coroatá - MA)


Por José Gonçalves

Por ocasião da 18ª Jornada Mundial da Juventude, I que ocorreu na cidade do Rio de Janeiro, o Papa Francisco deu início ao seu discurso de boas vindas com as seguintes palavras: “Quis Deus na sua amorosa providência que a primeira viagem internacional do meu Pontificado me consentisse voltar à amada América Latina, precisamente ao Brasil, nação que se gloria de seus sólidos laços com a Sé Apostólica e dos profundos sentimentos de fé e amizade que sempre a uniram de modo singular ao Sucessor de Pedro. Dou graças a Deus pela sua benignidade” (os itálicos são meus).
O que faz o Papa acreditar de feto no mito que é o Sucessor de Pedro?
A crença católica se fundamenta na tradição de que o apóstolo Pedro supostamente teria sido o primeiro líder da Igreja, consequentemente o primeiro Papa. A tradição católica defende que o apóstolo Pedro, logo após o término do seu episcopado em Antioquia, se tornou o primeiro bispo de Roma. Para a doutrina católica, Pedro teria ido a Roma logo após a sua libertação da prisão em Jerusalém (At 12) e tempos depois teria voltado para participar nessa mesma cidade do primeiro Concílio da Igreja.
Sem dúvida, essa é a principal excrescência do catolicismo romano. A razão é bastante simples: de acordo com a Bíblia, Tiago e não Pedro foi quem liderou a igreja apostólica nos seus primórdios. De acordo com a Enciclopédia Virtual Wikipedia, “Tiago, o justo, morto em 62 d.C, também conhecido como Tiago de Jerusalém, Tiago Adelfo ou ainda Tiago, o irmão do Senhor, foi uma importante figura nos primeiros anos do cristianismo. Tiago, o Justo, era o líder do movimento cristão em Jerusalém nas décadas seguintes à morte de Jesus”.
D e fato, o livro de Atos dos Apóstolos põe em evidência essa liderança de Tiago na Igreja Primitiva: “Então toda a multidão se calou e escutava a Barnabé e a Paulo, que contavam quão grandes sinais e prodígios Deus havia feito por meio deles entre os gentios. E, havendo-se eles calado, tom ou Tiago a palavra, dizendo: Homens irmãos, ouvi-me: Simão relatou como primeiramente Deus visitou os gentios, para tomar deles um povo para o seu nome. E com isto concordam as palavras dos profetas; como está escrito: Depois disto voltarei, e reedificarei o tabernáculo de Davi, que está caído, levantá-lo-ei das suas ruínas, e tom arei a edificá-lo. Para que o restante dos homens busque ao Senhor, e todos os gentios, sobre os quais o meu nome é invocado, diz o Senhor, que fez todas estas coisas, conhecidas são a Deus, desde o princípio do mundo, todas as suas obras. Por isso julgo que não se deve perturbar aqueles, dentre os gentios, que se convertem a Deus. Mas escrever-lhes que se abstenham das contam inações dos ídolos, d a fornicação, do que é sufocado e do sangue” (At 15.12-20).
O próprio Pedro reconhece esse fato quando, logo após a sua libertação da prisão, manda comunicar o fato a Tiago: “Ele, porém, fazendo-lhes sinal com a mão para que se calassem, contou-lhes como o Senhor o tirara da prisão e acrescentou: Anunciai isto a Tiago” (At 12.17).
Esse posto de proeminência de Tiago na igreja apostólica também é documentado por Josefo, um dos grandes historiadores da igreja e contemporâneo dos cristãos primitivos. Na sua Magnus Opus, a obra História dos Hebreus (publicada no Brasil pela CPAD), Josefo m ostra como até mesmo as autoridades viam em Tiago a liderança da igreja apostólica.
Após falar de Anano, um dos líderes da seita dos saduceus, Josefo escreve: “Ele aproveitou o tempo da morte de Festo, e Albino ainda não havia chegado, para reunir um conselho diante do qual fez comparecer Tiago, irmão de Jesus chamado Cristo, e alguns outros; acusou-os de terem desobedecido às leis e os condenou ao apedrejamento. Esse ato desagradou muito a todos os habitantes de Jerusalém, que eram piedosos e tinham verdadeiro amor pela observância das nossas leis”.
Ficam os, portanto, com a verdade bíblica e as palavras do ex-sacerdote católico Anibal Pereira dos Reis: “Pedro nunca foi papa e nem o Papa é Vigário de Cristo”.

José Gonçalves é pastor em Água Branca (PI), escritor e comentarista de Lições Bíblicas da CPAD.

Jornal Mensageiro da Paz, outubro de 2013, p.17: CPAD.


QUEM ERA MELQUISEDEQUE?

Como entender esse personagem que a Bíblia diz ter existido “sem genealogia”?
(Junior Severino, Rio de Janeiro - RJ)


Por Esdras Costa Bentho

Melquisedeque, personagem histórico citado como rei e sa­cerdote nas perícopes de Gênesis 14.18-20 e Salmos 110.4, é interpretado em Hebreus 5.6,10; 6.20 e 7.1 -10 conforme os midrashim (comentários) hebraicos e os tipos bíblicos. No primeiro texto, Abraão encontra-se com Melquisedeque após a vitória contra quatro reis no campo de vitória. Melquisedeque, rei e sacerdote do Deus Altíssimo, cumprimentou Abraão e o abençoou, recebendo dele o dízimo de todos os despojos. Aqui os leitores judeus são convocados à reflexão a respeito da superioridade de Melquisedeque sobre o pai das bênçãos salvífica e fundador da nação israelita, Abraão (Hb 7.4, 6-8).
No segundo excerto, o Messias-Sacerdote procede de outra estirpe sacerdotal claramente oposta à levítica - a ordem de Melquisedeque. Nada é dito a respeito dos antepassados de Melquisedeque, de seu nascimento ou de sua morte (Hb 7.3). Ele é uma figura histórica, mas enigmática. Todavia, para o hagiógrafo não é tão importante os poucos fetos a respeito dessa figura misteriosa, mas o significado cristológico e salvífico que os relatos assumem. E inegável que o autor aos Hebreus tem como pressupostos, em sua exegese, a inspiração das Escrituras, a pessoa de Jesus como chave para a interpretação do Antigo Testamento (Lc 24.44), e o entendimento de que a história do povo eleito é fonte da revelação divina. A salvação, portanto, não é fuga da realidade e da temporalidade, mas realiza-se no plano histórico e cotidiano. Deus não somente se revela no plano religioso como também na esfera pública.
Aprendemos com o anônimo autor, que as ações de Deus ultrapassavam os limites da religião judaica, assim como excedem as fronteiras do cristianismo contemporâneo. Abraão fora chamado de sua religiosidade para viver de conformidade com a revelação histórica. Recorre o escritor à etimologia do nome Melquisedeque para relacioná-lo imediatamente ao Messias, que também é chamado de “rei de justiça” e “rei de paz” (cp. Hb 7.2; Jr 23.6; Is 9.5). A seguir, interpreta, à maneira rabínica, os dois gestos em relação a Abraão: o dízimo recebido e a bênção dada ao patriarca (Hb 7.3-9), evidências da preeminência de Melquisedeque sobre Abraão e seus descendentes, os levitas. Observe, no entanto, que não é Jesus que é feito à semelhança de Melquisedeque, mas este à semelhança de Cristo (v.3).
O primeiro é o antítipo. O segundo o tipo. O tipo revela-se no Antigo Testamento, mas o antítipo em o Novo. Melquisedeque, assim como Adão, era “figura daquele que havia de vir” (Rm 5.14). Logo, os tipos são uma forma de profecia. A profecia consiste numa predição verbal, ao passo que o tipo é a predição feita pela correspondência entre duas realidades — o tipo e o antítipo. O tipo contém traços de predição, descrição e simbolismo. Ele antevê e chama atenção para o antítipo. O tipo é uma sombra que indica outra realidade (Cl 2.17). O tipo não é fantasia humana; ao contrário, responde ao programa da revelação estabelecida por Deus desde o princípio.

Esdras Costa Bentho é pastor, mestrando em Teologia pela PUC - RJ, pedagogo e autor das obras: Hermenêutica Fácil e Descomplicada e A Família no Antigo Testamento, ambos editados pela CPAD.

Jornal Mensageiro da Paz, maio de 2012, p.17: CPAD. 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

RESENHA: EXPIAÇÃO ILIMITADA.



RESENHA
Valdemir Pires Moreira*
VAILATTI, CARLOS A.

Expiação Ilimitada
São Paulo: Editora Reflexão, 2015, 160 p.

João 3.16 é considerado pelos intérpretes como sendo o resumo da Bíblia. É nesse versículo, dentre muitos outros, que se concentra a doutrina de que Deus enviou Jesus Cristo, seu Filho, para morrer em benefício de cada um dos seres humanos. Essa doutrina é chamada na teologia de “expiação ilimitada”. Foi um dos pontos defendido pelo teólogo holandês Jacó Armínio, reafirmado pelos remonstrantes, em seguida por John Wesley e pela maioria dos cristãos, sejam eles doutores ou leigos, pois o texto em apreço não nos deixa dúvidas.  

Expiação Ilimitada, é um livro que vem provar de maneira exegética a doutrina bíblica de que Deus morreu em favor de todos. Em contrapartida, de maneira natural desfaz o equívoco calvinista de que Jesus não morreu por todos, mas sim apenas por alguns, o que o Calvinismo chama de “expiação limitada”. A obra surge das mãos do Dr. Carlos Augusto Vailatti, doutor em estudos judaicos e árabes e mestre em teologia.  É uma obra exegética do assunto, e que traz em seu apêndice relatos de alguns Pais da Igreja, onde os mesmos defendem a doutrina da expiação Ilimitada, daí a importância para todo aquele que busca base bíblica para defender a doutrina bíblica da expiação ilimitada.  

Na introdução, o Dr. Carlos Augusto Vailatti, define o termo expiação e seus desdobramentos tais como: a intenção da expiação, a extensão da expiação e a aplicação da expiação. Declara-nos que o objetivo da referida obra é demostrar ser a doutrina arminiana da expiação ilimitada a que melhor corresponde ao registro bíblico. No primeiro capítulo, nos é apresentado o conceito de expiação no Antigo Testamento, na Septuaginta e no Novo Testamento. O segundo capítulo, traz algumas teorias sobre a expiação, são elas: a teoria da recapitulação elaborada por Irineu, bispo da Igreja de Lion; a teoria do resgate pago a satanás, defendida por alguns Pais da Igreja e associada a Orígenes; a teoria do exemplo moral, defendida por Pelágio; a teoria da satisfação, defendida por Anselmo de Cantuária; a teoria da substituição penal, defendida por Calvino, que trabalhou antes o argumento de Anselmo; e a teoria governamental  defendida por Hugo Grócio. No terceiro capítulo, aborda-se a expiação em Armínio, na Remonstrância e nos Cânones de Dort. Uma das observações feitas por Armínio e registrado nesse capítulo é que a expiação não pode ser desvinculada da presciência de Deus da fé em Cristo. Os remonstrantes, em sua declaração de fé, perseveram com fidelidade no pensamento original de Armínio. Carlos encontra dois trechos nos Cânones de Dort que entram em contradições, situados entre os capítulo I, Artigo 6 e o capítulo II, Artigo 6. No quarto e último capítulo, estuda-se alguns versículos bíblicos, onde constataremos realmente se o ensino das Escrituras dá testemunho da expiação limitada, como ensinam os calvinistas, ou da expiação ilimitada como ensinam os arminianos. A conclusão da obra traz cinco pontos conclusivos sobre o tema, que nos levam a entender que é o ensino da expiação ilimitada um ensino automaticamente bíblico.

Agradecemos ao Dr. Carlos Vailatti pela obra exegética com a qual vem a contribuir e muito para a compreensão bíblica de que Jesus Cristo morreu por cada um dos homens.  Agradecemos a Editora Reflexão por mais essa obra que contribuirá para o esclarecimento de muitas dúvidas quanto ao assunto tratado nessa obra.


*Valdemir Pires Moreira é diácono da Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Caucaia (CE), Casado com Elizangela Pires Oliveira Moreira, professor da Escola Bíblica Dominical e Administrador das páginas Teologia Arminiana em Vídeos e Teologia Arminiana em Livros (no Facebook).

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

O QUE É ARMINIANISMO?

"Arminianismo é o nome dado a uma linha de interpretação teológica na área de soteriologia, isto é, doutrina da salvação. Uma vez que a soteriologia estuda a forma como se dá a salvação, o arminianismo é, portanto, uma corrente de interpretação protestante e ortodoxa que busca, dentro da limitação do entendimento humano, apresentar como a salvação acontece. O sistema arminiano tem um sério e profundo compromisso com a Bíblia e com o consenso dos primeiros teólogos cristãos, os Pais da Igreja, e com a tradição cristã através da História, pois o arminianismo, embora não coloque a tradição em pé de igualdade com a Bíblia ou em superioridade a ela, valoriza seus desenvolvimentos e contribuições que estão em consonância com a Palavra de Deus".

MARIANO, Wellington. O Que é Teologia Arminiana. São Paulo: Editora Reflexão, 2015.